Este texto vou dedicá-lo ao meu pai, que vi partir quando eu ainda era jovem e que tanto eu como os meus irmãos mais novos, e a minha mãe, precisávamos muito dele.
Um pai que foi detido, quando eu tinha cinco anos de idade, nos fins dos anos cinquenta, sendo acusado injustamente, de pensar contra o governo dessa época e que partiu para sempre, apenas com cinquenta e quatro anos de idade, vítima de doença prolongada.
Felizmente ainda tenho mãe, que fui visitar ontem. Estivemos a conversar, e ela recordou com muita mágoa, essa época triste das “nossas vidas” e que jamais se apagará da nossa memória, no entanto existem factos muito lindos que nem eu nem os meus irmãos iremos esquecer. Fui filha única até aos seis anitos e tive muito miminho dele como é óbvio:-)
A minha “velhinha” já vai fazer 86 anos em Maio e o que mais me comove é ela estar ceguinha e não poder ver os filhos, os netos e os bisnetos que a visitam, mas com as suas delicadas mãos acaricia-nos, e é um prazer enorme para mim sentir o AMOR dela.
Da minha amiga Cristina Fidalgo:
Amanhã vou visitar-te...
Vou levar comigo os únicos beijos que ainda te posso dar. Agora escolho-os apenas pela cor - sempre brancos - e pelo aroma...
Quando chego e olho o teu rosto, naquele sorriso preso numa pedra fria, já um pouco gasto pelos raios de um sol que continua a nascer todos os dias, servindo-te de manto, tento sorrir-te também para que saibas que cheguei e que ainda sei sorrir...
Coloco os meus beijos ao lado do teu rosto como se eu própria me aconchegasse no teu colo e sento-me sempre um pouco para conversar contigo.
Deveria talvez rezar quando te vou visitar. Foi assim que me ensinaram a fazer, quando era mais pequena... mas não sou capaz. Preciso de sentir que ainda me ouves. Preciso de conversar contigo!
É por isso que quando me sento e te olho a sorrir, mesmo que pelo meu rosto desçam algumas lágrimas que não consigo evitar, eu sei que me escutas e que sentes o aroma a saudade nos beijos que te dou.
Nessas alturas nem preciso cerrar as pálpebras para voltar aos momentos em que ainda tinhas aquele colo sem igual e me ensinavas a crescer e a conhecer o amor e a ternura.
Um dia disseste-me que quando gostamos muito de alguém nunca o perderemos. Acreditei em ti! Tu dizias-me sempre as verdades, porque me haverias de mentir nesse momento?... Mas quando partiste eu pensei que afinal não era sempre tão verdade o que me dizias. Eu gostava tanto de ti, pai... e tu partias assim! Sem sequer me dares tempo de te dizer adeus...
Hoje quando vou visitar-te sei sempre que afinal era mais uma das tuas verdades!... Sei agora que foi mais uma das formas que encontraste para me ensinar que a vida também doi... mas quando amamos muito alguém nunca deixamos de sentir esse amor. Foi assim que me ensinaste que o amor vale a pena e que a nossa capacidade de amar é maior do que alguma vez imaginámos...
E é por isso que quando te vou visitar ainda converso contigo como se ainda estivesse no teu colo.
E é por isso que quando te vou visitar te levo flores brancas, com o aroma mais doce que encontro... Porque era assim que sentia os beijos que me davas... e são ainda assim os beijos que te deixo, naquela jarra, ao lado do teu rosto...
As saudades... sinto-as cada vez mais intensamente, mas essa é a certeza que tenho que nunca me mentiste... que nunca te perderei... e que, onde quer que estejas, estás sempre comigo, aninhada no teu colo, imenso, bordado de ternura e afagos... e agora com a mãe também ao pé de ti!
Sabes, poderia passar aqui a noite a agradecer-te todas as coisas que me deste e me ensinaste e acredita que a noite não seria suficiente... mas digo-te apenas um "obrigada": por me teres ensinado a viver sabendo o valor das palavras "verdade" e "amor". Deixaste-me assim a maior herança que uma filha pode herdar - A de te poder recordar sempre como um Pai a valer!
Um beijo do tamanho do universo!
Cris (Conversas contigo... depois!)
