sábado, 18 de abril de 2009

MEMÓRIAS...

Igreja do Carmo (Olhando a Cruz) - Aveiro
Varanda perto dos Arcos (Olhando as flores vermelhas dos catos) - Aveiro
Esta Rosa é para ti pai Quim, que estarás sempre na minha memória
Estas flores branquinhas são para o Pai da Cris, que estará sempre na sua memória
Esta foto de imensos malmequeres (que apenas fotografei uma pequena fracção) ofereço-os a todos aqueles, que como o meu pai, sofreram as injustiças dessa época, até à Revolução dos Cravos


Este texto vou dedicá-lo ao meu pai, que vi partir quando eu ainda era jovem e que tanto eu como os meus irmãos mais novos, e a minha mãe, precisávamos muito dele.

Um pai que foi detido, quando eu tinha cinco anos de idade, nos fins dos anos cinquenta, sendo acusado injustamente, de pensar contra o governo dessa época e que partiu para sempre, apenas com cinquenta e quatro anos de idade, vítima de doença prolongada.

Felizmente ainda tenho mãe, que fui visitar ontem. Estivemos a conversar, e ela recordou com muita mágoa, essa época triste das “nossas vidas” e que jamais se apagará da nossa memória, no entanto existem factos muito lindos que nem eu nem os meus irmãos iremos esquecer. Fui filha única até aos seis anitos e tive muito miminho dele como é óbvio:-)

A minha “velhinha” já vai fazer 86 anos em Maio e o que mais me comove é ela estar ceguinha e não poder ver os filhos, os netos e os bisnetos que a visitam, mas com as suas delicadas mãos acaricia-nos, e é um prazer enorme para mim sentir o AMOR dela.


Da minha amiga Cristina Fidalgo:

Amanhã vou visitar-te...

Vou levar comigo os únicos beijos que ainda te posso dar. Agora escolho-os apenas pela cor - sempre brancos - e pelo aroma...

Quando chego e olho o teu rosto, naquele sorriso preso numa pedra fria, já um pouco gasto pelos raios de um sol que continua a nascer todos os dias, servindo-te de manto, tento sorrir-te também para que saibas que cheguei e que ainda sei sorrir...

Coloco os meus beijos ao lado do teu rosto como se eu própria me aconchegasse no teu colo e sento-me sempre um pouco para conversar contigo.

Deveria talvez rezar quando te vou visitar. Foi assim que me ensinaram a fazer, quando era mais pequena... mas não sou capaz. Preciso de sentir que ainda me ouves. Preciso de conversar contigo!

É por isso que quando me sento e te olho a sorrir, mesmo que pelo meu rosto desçam algumas lágrimas que não consigo evitar, eu sei que me escutas e que sentes o aroma a saudade nos beijos que te dou.

Nessas alturas nem preciso cerrar as pálpebras para voltar aos momentos em que ainda tinhas aquele colo sem igual e me ensinavas a crescer e a conhecer o amor e a ternura.

Um dia disseste-me que quando gostamos muito de alguém nunca o perderemos. Acreditei em ti! Tu dizias-me sempre as verdades, porque me haverias de mentir nesse momento?... Mas quando partiste eu pensei que afinal não era sempre tão verdade o que me dizias. Eu gostava tanto de ti, pai... e tu partias assim! Sem sequer me dares tempo de te dizer adeus...

Hoje quando vou visitar-te sei sempre que afinal era mais uma das tuas verdades!... Sei agora que foi mais uma das formas que encontraste para me ensinar que a vida também doi... mas quando amamos muito alguém nunca deixamos de sentir esse amor. Foi assim que me ensinaste que o amor vale a pena e que a nossa capacidade de amar é maior do que alguma vez imaginámos...

E é por isso que quando te vou visitar ainda converso contigo como se ainda estivesse no teu colo.

E é por isso que quando te vou visitar te levo flores brancas, com o aroma mais doce que encontro... Porque era assim que sentia os beijos que me davas... e são ainda assim os beijos que te deixo, naquela jarra, ao lado do teu rosto...

As saudades... sinto-as cada vez mais intensamente, mas essa é a certeza que tenho que nunca me mentiste... que nunca te perderei... e que, onde quer que estejas, estás sempre comigo, aninhada no teu colo, imenso, bordado de ternura e afagos... e agora com a mãe também ao pé de ti!

Sabes, poderia passar aqui a noite a agradecer-te todas as coisas que me deste e me ensinaste e acredita que a noite não seria suficiente... mas digo-te apenas um "obrigada": por me teres ensinado a viver sabendo o valor das palavras "verdade" e "amor". Deixaste-me assim a maior herança que uma filha pode herdar - A de te poder recordar sempre como um Pai a valer!

Um beijo do tamanho do universo!
Cris (Conversas contigo... depois!)

13 comentários:

Menina do Rio disse...

Lindo! estou aqui sem palavras...
As perdas são irreparaveis e não há nada que compense a vaga deixada por um pai a uma criança. Mas é a vida e temos que seguir...


Um beijinho pra ti, querida. E pra tua mãezinha e toda a tua familia

Zémaiato disse...

Olá querida Ana. Obrigado pelas tuas palavras no Zémaiato, são palavras de quem já viveu uma tempestade ameaçadora que parecia não ter fim, como aquela que hoje testemunho.
Quanto ao pai, o meu também já partiu. Mas está sempre presente na lembrança e na repetição dos seus ditos e graças pela pessoa divertida que era, apesar das dificuldades da vida, de um operário com 9 filhos a sustentar.
Sempre que se proporciona, lá estou eu a repetir o que dizia e fazia.
Nunca utilizo a palavra "falecido", mas: - o meu pai era assim, dizia isto e aquilo. E conto as suas peripécias engraçadas como se ele cá estivesse.
A eternidade é isso mesmo, manter presente de geração em geração, o ser, a alma e o pensamento, de quem abandonou a "roupa" corporal.
Naturalmente que também o teu pai está sempre presente, se assim não fosse, este teu texto e lembrança não teria existido.

Beijos de amizade.

Nadia Mendes disse...

Ana, a unica coisa que posso deixar é um grande abraço! Sinta-o ai bem apertadinho!
Um grande Beijo, Nadia

Helena Paixão disse...

O teu pai partiu mas... continuou a viver nas memórias de quem sempre lhe quiz bem. Que maior glória poderá alguém querer?

Belissima esta tua homenagem, Ana!

Bjinhos e tem uma óptima semana.

Agulheta disse...

Ana.Como é a vida,o meu pai cabe nesses malmequeres que aqui deixas,foi vítima da mesma injustiça? como podem os homens esquecer quem lhe fez tao mal,eu não esqueço amiga,e somos duas a partilhar esta triste experiência de vida,mas mesmo assim estão presentes no nosso coração sempre.
Beijinho e abraço apertado Lisa.

Kafia disse...

Meu deus... que lindooooooo!



Adorei essas flores!!! :D
Se fosse eu... concerteza ficaria a olhar para elas como hipnotisada! :D


Fantastico!

Liar disse...

Simplesmente lindo, a tua homenagem ao teu pai, escolheste bem o texto, e comovi-me ao le-lo!

É tão bom poder chamar pai!

Obrigada querida Guga!

Beijo e Xi apertadinho

Céci

tossan disse...

Fizestes um lindo comentário la no klic que me comoveu. Adorei a narrativa muito bonita, o video e as fotos.

PS: A foto lá não é a terceira e sim a primeira do meu sobrinho neto. Beijo

elvira carvalho disse...

Lindo. estou muito comovida. Como sabe adorava meu pai que se foi a 28 do mês passado. Ontem era o dia do seu aniversário e levei o dia chorando. Tenho tantas saudades.
Um abraço

Anónimo disse...

Olá pulguita, tinhas razão já chorei, estou comovida tu sabes como eu sou. Está simplesmente lindo.
Bjnho gande

Gui disse...

Verdadeiramente comovente este post. As nossas memórias são um dos maiores tesouros que podemos ter. Elas serão a nossa bússola que nos guiarão no caminho que temos pela frente. Gostei muito de ler. Um beijo.

Adolfo Dias disse...

Uma "delícia" de trabalho fotográfico!
Adorei também o texto da Cristina, é algo que cativa. Ela tem algum livro?
AD

Eugénio Passos Dias Aguiar Mota disse...

Magnífico este trabalho dedicado à memória de alguém certamente importante nesta terra.
Gosto das fotografias apresentadas, mesmo com o detalhe da central de alarmes de intrusão a ocupar um ponto de força na primeira fotografia... enfim, o progresso!
O texto da Cristina Fidalgo... Delicioso!